Porão do Rock - 10 anos!

01/06/07 - Sexta-feira - Garotos Podres, Allface, Linha de Frente, Inocentes, Galinha Preta, Mechanics, Dance of days, Satan Dealers, Zamaster, Born a Lion, Harllequin, Tuatha de Danan e Angra.

por Leo(texto), Obiwan-ca e Alvaro (fotos e videos)

Garotos Podres

Inocentes

Dance of Days

Bellrays

Rock Rocket

Galinha Preta

Moptop

Supergalo

Móveis Coloniais de Acaju

Mudhoney

Depois de várias críticas nos últimos anos, e comemorando sua décima edição em 2007, o Porão do Rock ensaiou um bem vindo retorno às origens, ou pelo menos uma olhada para trás. Foram cortadas da edição desse ano as grandes atrações pops, como Skank, Barão Vermelho e Detonautas, e o festival voltou a ter dois dias, o que se traduz em uma mescla maior de estilos. A arena e a tenda eletrônica também diminuíram de tamanho, acomodando bem o público presente. No entanto, a estrutura dos dois palcos, com a área VIP entre eles, continuou a mesma, e o som continuou muito bom próximo aos palcos e relativamente ruim nas partes da arena mais afastadas.

Com um dos menores atrasos de todas as edições do festival, subiram ao palco os Garotos Podres, de São Paulo. Mostrando toda sua podridão em forma de barrigas proeminentes, os Garotos agitaram o público já presente à arena. Com 25 anos de estrada, a banda mostrou experiência, agradando seus fãs com hits proletários como "Papai-Noel Filho da Puta", "Maldita Polícia", "Vomitaram no Trem" e "Oi! Tudo Bem?". Os poucos skinheads na platéia agitaram junto com os punks e metaleiros, e não causaram nenhum problema maior. 

Em seguida, foi a vez do Allface, de Natal, mostrar seu som para um público menor e um pouco desinteressado. A banda diz ter influências muito distintas, como Weezer, Nirvana, The Ataris e Los Hermanos, e como era de se esperar, mostrou um som um pouco confuso, sem nada que os destacasse em meio a tantas atrações. Ao menos o Allface mostrou uma boa postura no palco, fazendo uma apresentação animada.

De volta ao palco Marcão Adrenalina, o Linha de Frente demonstrou técnica e muita vontade com seu hardcore straight edge, com ecos de metal e rap. Pregando sobre o veganismo e a libertação animal antes, durante e após cada música, o discurso da banda encontrou reações fortes no público, tanto de apoio quanto de rejeição. Os 3 vocalistas cantam em todas as músicas, deixando o resto da banda em segundo plano, e apesar de agitarem bastante, o palco pareceu um pouco grande demais para os caras. Em um dia de bandas pesadas, porém, o som do Linha de Frente teve uma boa resposta da platéia, formada em boa parte por straight edgers fãs da banda. 

Enquanto isso, no palco Ricky Novaes, os Inocentes se preparavam para entrar em cena. Mostrando mais técnica e preparo físico do que os contemporâneos Garotos Podres, e com uma postura de banda mainstream, os Inocentes fizeram um ótimo show, e agradaram ao grande público, que cantava junto várias das músicas mais conhecidas como "Pânico em SP", "Cala a Boca" e "Expresso Oriente". Clemente também mostrou ser um ótimo frontman, cantando, tocando e pulando o show inteiro, como se estivesse em 1987.

Em seguida os Mechanics mostraram seu "rock estupidamente barulhento" para um público que praticamente desconhecia a banda. O show dos goianos não causou grande comoção, mas agradou a parcela da platéia que gosta de um som mais pesado.

Depois do Mechanics, foi a vez do Dance Of Days se apresentar. Os paulistas começaram o show com o hit "Adeus Sofia" e tocaram varias favoritas dos fãs, além de "Com Você Não Vou Ter Medo", música nova e muito boa, disponível no site Trama Virtual. O vocalista Nenê Altro, que está cada vez mais gótico e provocativo, compensou o fato de estar um pouco sem voz com uma performance andrógina e muito carismática, que prendeu a atenção do público. Os outros integrantes da banda também demonstraram empolgação e boa presença no palco, fazendo um show que agradou bastante os fãs. Como ponto negativo pode ser destacada a ausência de "Me Leve às Estrelas", que não pode ser tocada por problemas com o tempo da apresentação. 

Já era hora dos Satan Dealers, que apesar do nome, não são tão "do mal" assim. Influenciados pelo proto-punk de Stooges e MC5, o som dos Dealers é próximo ao rock n roll de bandas suecas como Hellacopters e Backyard Babies. Liderados pelo guitarrista Martin Piñeyro, os argentinos fizeram uma apresentação energética, mas apesar de cantar em inglês e em espanhol, tiveram muita dificuldade em se comunicar com a platéia, que apesar de numerosa, só se animou com o cover de "Bette Davis Eyes".

Em seguida, o Zamaster se apresentou no palco Marcão Adrenalina. A banda, que é uma das fundadoras do festival, se apresentou no Porão pela sexta vez e tocou musicas do seu segundo álbum "A kbça é boa, os pensamento é que atrapalham", lançado ano passado. Uma vez dito o nome do disco, se torna desnecessária qualquer outra consideração sobre o som ou a apresentação da banda.

Após o lanche, foi a vez dos portugueses do Born a Lion mostrarem seu rock setentista, com influências de blues e country, tudo meio chato. A banda, liderada pelo baterista e vocalista Rodriguez, toca bem e é animada no palco, mas as músicas não tem nada de especial, deixando o show um tanto monótono. O destaque da apresentação foi a participação de Fabrício Nobre, vocalista da conhecida banda goiana MQN.

Logo após o Born a Lion, o Harllequin mostrou seu heavy metal para o público, já ansioso pelo headliner da noite, Angra. A banda, que foi classificada na segunda noite da Seletiva Brasília, curiosamente tocou entre as apresentações principais, mas não decepcionou a grande massa metaleira presente no dia. 

A penúltima banda da noite foi o Tuatha de Danan. Os mineiros de Varginha tocam um metal influenciado por música e folclore celta, com vários instrumentos pouco usuais à bandas de metal como violinos, flautas e gaitas de fole. A mistura, que lembra o som do Jethro Tull, agradou à platéia, que em sua maioria parecia já conhecer o trabalho da banda. 

Por último, foi a vez do Angra subir ao palco e fazer a alegria dos seus inúmeros fãs na arena, tocando seu metal melódico para as quase 10 mil pessoas presentes.


02/06/07 - Sábado - Lafusa, Macaco Bong, Rock Rocket, Superguidis, Cromonato, Vamoz!, Moptop, Supergalo, Móveis Coloniais de Acaju, Bellrays, Nação Zumbi, Sepultura e Mudhoney.


Após um primeiro dia dedicado a estilos mais pesados de rock, o sábado foi dominado pelo indie rock e por bandas mais experimentais. A tenda eletrônica estava cheia como no dia anterior, mas desta vez tocando de tudo um pouco, para um publico bem mais eclético. Se no primeiro dia pode-se ouvir Rage Against The Machine, Arctic Monkeys e remixes de Metallica, no segundo o som ia do rap ao dub sem o menor constrangimento. 

Com um atraso ainda menor do que o de sexta-feira, o Lafusa abriu as atividades do dia com sua mistura de rock e MPB já famosa na cidade. 

Em seguida o Macaco Bong, de Cuiabá, desfilou seu rock instrumental com boas doses de experimentação pelo palco Ricky Novaes. O som do palco estava ótimo e os músicos do Macaco tocam muito bem, fazendo um som que varia entre rock pesado, guitarras setentistas e influências jazzísticas. Mas as músicas muito longas e o público quase inexistente em toda arena deixaram o show um pouco longo e desanimado.

Depois do rock instrumental, o Rock Rocket mostrou todo o poder do seu rock n roll alcoólatra e inconseqüente para uma platéia ainda pequena, mas bastante animada. Com muita energia e espírito adolescente, o trio paulista mostrou várias músicas do seu primeiro disco e boa presença no grande palco do festival. Nem a interrupção forçada pela corda arrebentada do baixo de Pesky esfriou o show. Ótima apresentação. 

O Superguidis mostrou em seguida porque é considerada a maior revelação do rock gaúcho nos últimos anos. Com muita simpatia, a banda ganhou o público com seu indie rock influenciado por Pavement e Guided By Voices, com um indefectível sotaque gaúcho, é claro. A recepção da platéia foi muito boa, com muita gente cantando junto as letras curiosas do álbum homônimo. O destaque do show foi a apresentação de "Mais do que Isso", nova música da banda, tão boa quanto as do álbum.

A segunda banda da noite escolhida por meio da Seletiva Brasília se apresentou em seguida. Surpreendentemente, o Cromonato tinha um publico próprio, bastante ansioso pela apresentação da banda do Gama. A apresentação do trio, entretanto, não empolgou a maior parte da platéia, uma vez que o rock da banda se mostrou sem graça e personalidade. 

O trio pernambucano Vamoz! se apresentou em seguida, abrindo o show com uma música instrumental e se concentrando nos sons do seu mais recente álbum Damned Rock n’ Roll, mais pesados do que os do álbum anterior. Com duas guitarras e nenhum baixo, o indie rock da banda é pesado, barulhento e cantado em inglês. A banda se comunica pouco com a platéia e, de início, não empolgou muito. A apresentação, porém, foi esquentando e a banda deve ter ganhado alguns fãs na cidade.

Mais indie rock ainda veio pela frente, com os cariocas do Moptop e seu som fortemente influenciado por Strokes. Com sua crescente popularidade, a banda entrou com o jogo quase ganho. O público, já bem grande, cantou junto e bateu palmas, mas a apresentação da banda é um tanto parada e mesmo com músicas boas, o Moptop não consegue empolgar aqueles que não são fãs. Para a sorte deles, grande parte da platéia era. 

Já o Supergalo não tem tantos fãs e empolgou muito pouca gente com seu rock radiofônico. A banda conta com Alf (ex-Rumbora), Fred (ex-Raimundos) e Marcelo "Salsicha" (ex-Maskavo Roots), mas produz músicas genéricas, meio praianas, meio dançantes, totalmente sem graça. O som também não ajudou, sendo praticamente impossível ouvir uma das guitarras durante boa parte da apresentação.

Foi então a vez do Móveis Coloniais de Acaju fazer um dos melhores shows desta edição do festival. Ainda mais do que o Moptop, os caras entraram com o jogo totalmente ganho, e foram aclamados pelo público que gritava, pulava, batia palmas e cantava todas as músicas que a banda tocou, até mesmo as novas, que não estão no álbum de estréia, Idem, lançado em 2005. Misturando rock, ska, swing, samba, salsa e outros ritmos, a banda, que recentemente se apresentou em alguns festivais como o MADA (RN) e o Humaitá Pra Peixe (RJ), tem uma interação impressionante com a platéia e, mesmo com a proporção do show, não deixou de descer do palco e tocar no meio da galera na última musica do show, o hit "Copacabana"

Diferentemente de outras bandas internacionais que já tocaram no Porão do Rock, os americanos do Bellrays mostraram a que vieram. O som da banda é um rock pesado, quase punk, com algumas influências de blues e soul, representadas principalmente pela ótima vocalista Lisa Kekaula. A voz de Lisa realmente lembra às de grandes divas da musica negra norte americana e conseguiu impressionar o público, que apesar de não conhecer bem a banda, pareceu gostar da apresentação.

Em seguida a Nação Zumbi subiu ao palco com o público na mão. A banda consegue agradar indies, metaleiros, grunges, emos, críticos musicais e quem mais aparecer pela frente, e colocou um Porão do Rock completamente lotado para dançar ao som do seu rock com ritmos nordestinos. O show foi bastante longo, agradando os fãs e simpatizantes e levando ao desespero os poucos que não gostam da banda. 

Era finalmente a hora do público matar as saudades do Sepultura, que não tocava na cidade há 5 anos, e avaliar o desempenho do novo baterista da banda, Jean Dolabela. Depois de quase uma década, o vocalista Derrick Green parece totalmente integrado ao grupo e aceito pelos fãs da banda, se comunicando em um português razoável e liderando a banda em um show pra fã nenhum por defeito. Dolabela não tem a moral de Igor Cavalera, mas também desempenhou muito bem sua função, mostrando que o Sepultura continua sendo a maior banda de metal brasileira, mesmo sem os irmãos Cavalera.

Fechando a noite e a edição 2007 do festival, o Mudhoney se apresentou para uma platéia já um pouco reduzida, mas ainda muito empolgada para ver uma das mais importantes bandas do movimento grunge. O Mudhoney pode não ter ficado tão famoso quanto o Nirvana ou o Pearl Jam, mas mostrou que, 15 anos depois do estouro da cena de Seattle, ainda é uma banda muito relevante e capaz de fazer um ótimo show. Do alto de seus 45 anos, Mark Arm ainda consegue gritar como um adolescente e a banda ainda mostra muita vontade de tocar. Abrindo o show com "You Got It", seguida de "Suck You Dry", o Mudhoney conquistou o público logo de cara, a daí para frente foi revezando seus hits com músicas um pouco mais difíceis e nem tão conhecidas. Ao final, o auge do show parecia ter sido mesmo a execução de "Touch Me I’m Sick", berrada por boa parte dos fãs, mas a banda ainda voltou para um bis aparentemente não planejado, ou, ao menos, não combinado com os técnicos de som do festival. Sem sua guitarra e de microfone em punho, Mark Arm se aproximou da platéia e a banda mandou uma ótima versão para "Fix Me", clássico do Black Flag, e, para terminar, "Hate The Police". Um final matador para um ótimo show.

Entre altos e baixos, o Porão do Rock 2007, foi muito bem sucedido ao se firmar como um dos mais importantes e longevos festivais de rock no Brasil e pareceu indicar o caminho para a organização do evento, já que os dois dias de shows com uma maior mescla de estilos agradou a maioria, e a arena esteve bastante cheia, especialmente no sábado. As atrações, de pequeno e médio porte e menos pops, também agradaram e foram capazes de trazer o festival de volta para perto dos porões da cena alternativa.

 

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