Rock no Porão do Rei
27/04/02 - William Breadman Project, Super Stereosurf, Capotones, Pulso, Rockacola

por Bruno Cavalcanti

The William Breadman Project (com a paticipação de Rafael Farret do Bois de Gerião)

Super Stereosurf

Os Capotones

Rockacola

Faz muito tempo que não faço uma resenha de um show inteiro, da primeira à última banda. Primeiro por que é um saco trabalhar todos os fins-de-semana num lugar/ambiente onde todos estão se divertindo, e você - prestando atenção tecnicamente na coisa; trabalhando! Segundo, porque é um trabalho, por ser várias vezes por semana, que exige bastante bom-humor, boa-vontade paciência, disposição e saco, e como essas minhas partes patológicas não andam tão em alta... Bom, deixa pra lá!

Mas desta vez, por se tratar do lançamento dos trabalhos de duas bandas do selo e de uma outra que todos da PROTONS temos um grande apreço, decidi abrir uma exceção e fazer um esforço sobre-humano. O show, marcado para as 21 horas, começou às 22:30, coisa normal em Brasília! E só não começou mais tarde porque o dono do lugar, que recebe o humilde apelido de "Rei", estava encrencando com algumas garotas se beijando na entrada do lugar. Na verdade, não cheguei a ver tal(ais) cena(s) pornográficas, mas se visse, garanto que já entraria no show com uma disposição bem maior, se é que me entendem! Bom, mas se o cara é "O Rei", que seja um déspota!

A primeira banda foi a super cultuada William Breadman Project, que tem - segundo dizem, um dos melhores guitarristas de Brasília. Bom, eu sei que seu irmão mais velho, o Dr. Rogério, é meu oftalmologista, se é que isso tem algo a ver! Eles estão para o Prot(o) assim como o Rockacola está para o Gramofocas. E não dispus as bandas em dupla nessa ordem por questões qualitativas, mas pela simples semelhança entre elas.

Bom, vamos ao show. Os cara tocam muito bem, embora o show seja super entediante! Parece que toda a vez é sempre o primeiro show dos caras - eles ficam lá, parados, sem saber direito o que fazer e para onde olhar. E o show não é chato pelas músicas, pelo contrário, elas são rocks pops de qualidade, falta apenas mais empolgação dos caras, que fiquem mais desinibidos no palco.

Depois foi a vez do Super Stereosurf, que mais me pareceu uma remodelagem do Superego Elvis, pois metade da banda fazia parte desta. Me simpatizo por bandas onde os caras no palco, antes mesmo de começarem a tocar, pelo visual e postura, já esboçam para que vieram, e o Super Stereosurf, que leva surf instrumental, não me passou nenhuma impressão que chegasse perto do estilo deles! O vocalista até tenta dar um gás na banda com suas caras e bocas, mas convenhamos, um show de surf instrumental só passaria (na minha opinião, lógico!) do The Ventures! De qualquer forma, é algo a ser trabalhado, e tenho certeza que uns vocaisinhos não farão tanto estrago!

Depois foi a vez dos Capotones. A banda toca um psychobilly bem incomum aqui no centro-oeste, numa mistura bem empolgante entre os veteranos do The Cramps e os não tão veteranos do Guana Batz e Jet Set Rapist. Eles têm um visual muito bem trabalhado, uma boa postura de palco e não deixam a desejar no domínio dos seus instrumentos! Destaque para o cover muito bem executado de "Too Drunk To Fuck", dos Dead Kennedys, numa versão mais psychobilly ainda que a original! O último show que havia assistido da banda com atenção foi um no Don Taco no Pier 21, e de lá pra cá eles evoluíram bastante, parece que se acertaram mais como banda e as músicas estão mais coesas...

Depois foi a vez do Pulso, com o show de lançamento do Ep. Digo sinceramente que não foi o melhor show da carreira eles! Primeiro porque a sonoridade das músicas no show ficou bem pesada, bem hardcore no sentido literal do termo, e o vocal (que Bianca no meio do show ainda pediu para o técnico de som abaixar) ficou pouco nítido.

É notório que a esforçada Bianca evolui a cada dia como front girl da banda, e quem acompanhava o Pulso desde o início, percebe uma grande melhoria na sua postura sobre o palco. Ela desenvolveu um estilo próprio de agitar, completamente desordenado, que cria uma sintonia perfeita com o conceito das letras da banda. O guitarrista Alvaro e principalmente a baixista Ana, porém, continuam tímidos e introspectivos demais; apesar de não errarem, ficam meio sumidos no palco. Aí deveria entrar a relação "química ilegais ou legais" pela performance, para fazer a devida diferença sobre o palco. A verdade é que quase ninguém estava muito empolgado, o som (por culpa da banda) não estava como se sente no Ep, e, se não fosse a Bianca, o show seria entediante...

Chegou a vez do Rockacola, e digo-lhes, foi o melhor show da noite, senão um dos melhores shows de uma banda de Brasília que já assisti na vida! Se não fosse a guitarra alta demais e o baixo quase inaudível, seria a melhor apresentação do Rockacola de sempre! A melhor coisa que Olavo podia ter feito pela banda foi largar a guitarra e ficar só com o microfone, e neste show ficou comprovado que ele é o melhor front man da cidade! Ele não pára um só segundo do início ao fim; treme, delira, incorpora a alma de um rockabilly dos 50's, e suas cadeiras, pernas e braços, parecem ligadas à tomada! Sem contar a atitude obrigatória de todo o front man que se preze, de cantar para o público, olhando para o público, interagindo com o público, coisa ele faz com perfeição!

Só para não dizer que está perfeito, ele precisa apenas relaxar um pouco mais e trabalhar um diálogo maior e interação mais fluente com o público nos intervalos ou durante as canções. Mas como a característica de front man do Olavo está diretamente relacionada com a tensão e nervosismo que se apodera da alma do rapaz no momento que sobe ao palco, talvez uma coisa impedirá a outra. Melhor então assim como está...

Diego, o baixista, é irmão do Pedro Ivo, do Prot(o). E a prova genética é o tique de tocar mordendo a linguinha. Que charme! Ele é um que se mostra completamente desenvolto e relaxado sobre o palco! Guigo Belfort, que só pode tocar porque saiu da Casa dos Artistas (e garotas, ele terminou com a Feiticeira! Uhuu!) é o baterista mais poser (no melhor sentido do termo) da cidade (não foi só aquela camiseta regata branca que ele usou que ficou molhada; a minha cueca também!) Ele toca muito, tem um estilo próprio e, melhor ainda, bate com força, chegando a derrubar a estante do prato no final do show no pé de um desavisado que passava por lá, que felizmente - tudo pelo show! - perdeu o dedão!

Bruno Rocker que ainda não se soltou como deve! Estava bem produzido e tal, mas ainda não foi dessa vez que conseguiu relaxar. Ele passa a impressão que está sempre com a cabeça em outro lugar, com aquela fisionomia de preocupação com qualquer outra coisa. Era ele quem produziu este show, e talvez isso justifique. Quero vê-lo um dia sobre o palco num show que a banda seja apenas convidada, e que ele não tenha absolutamente nenhum compromisso com a produção nem com mais nada, pra ver se aquele cara se despiroca de uma vez e entra no clima do Rockacola!

 

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