2° Feminifest

por Luís Xavier

Festival feminista movimenta cena punk rock de Brasília e prepara nova geração de meninas dispostas a dar continuidade ao feminismo no rock local.

Domingo cinzento mas especial para o underground brasiliense. É que a turnê da banda paulista Dominatrix e da norte americana The Haggard deram uma parada na cidade para se apresentarem juntamente às locais Kaos Klitoriano e Pulso no 2o Feminifest.  Festival idealizado e organizado pelos músicos do Pulso, Bianca Martim e Alvaro Dutra. A banda novata Better Days foi anunciada como a quinta atração do festival, mas não pôde se apresentar devido a um pequeno acidente que o seu baterista Fred sofrera na véspera do show.

O Feminifest têm duas características principais. O de reunir bandas que tenham mulheres em suas formações e o de prestigiar a cena punkrock e hardcore. Das quatro bandas que se apresentaram, apenas as locais contavam com a participação de homens em seus line ups.  E se o festival têm metas, a principal é a de incentivar o público feminino a participar intensamente da cena musical. Seja montando bandas ou expondo as suas mensagens e idéias por meio de zines ou outros meios capazes de mostrar e defender os valores da mulher. Idéias essas, geralmente influenciadas por bastante pensamentos e atitudes feministas. Se o feminismo não aparece na postura da banda, fica o exemplo de subir no palco, não se intimidar por nenhuma banda de garotos e mostrar o seu som. Sem medos.

No punk rock nacional ou estrangeiro não é difícil encontrar bandas e pensadoras da causa feminista e dos direitos das mulheres. Dominatrix lidera a cena nacional com 7 anos de estrada e três CDs lançados. Brasília já deu a sua contribuição à cena com bandas como Bulimia, que contava com Bianca Martins em sua formação, e a veterana Kaos Klitoriano. O 2o Feminifest pode ter servido, com muitas  esperanças de suas participantes, como fonte de inspiração e incentivo a uma possível geração de novas bandas femininas brasileiras.

Confira em entrevistas curtas e diretas, o que as bandas participantes do festival tiveram a falar sobre os seus trabalhos, feminismo e claro, sobre o 2o Feminifest.

Kaos Klitoriano 
(Adriana Silva - baixo e vocal)

Segunda vez no Feminifest. Qual a importância deste festival para você?

É muito bom, né? Só é ruim que a gente vê que no segundo festival, as bandas formadas por mulheres ainda estão no mesmo número. As mulheres ainda não se reuniram. Porque o que a gente quer é que mais mulheres se reúnam e se movimentem. Que, enfim, façam mais bandas de mulheres. Depois de três anos, acho que o primeiro Feminifest  foi em 2000, praticamente têm o mesmo número de bandas de mulheres (em Brasília).

O Kaos Klitoriano tem dez anos de estrada...  

(Interrompendo) Sim, o Kaos tem. Mas nesses dez anos  teve vários períodos que a gente ficou parada. Contando tudo, acho que foram uns quatro ou cinco anos paradas.  Mas o Kaos tem 10 anos. É de 93.

O que mudou na banda do primeiro Feminifest para este?

O que mudou na banda foi só a formação mesmo. Porque as idéias, a consciência e a ideologia continuam as mesmas.

Vocês tem um LP lançado. Tem trabalho novo para lançar?

Não. Por enquanto não. Porque houve essa mudança de formação e tal. E geralmente mudança de formação é muito complicado. Entra uma pessoa diferente e tem que passar todas as músicas. Então é bastante complicado a gente fazer músicas novas. Porque não tem uma formação definida. É complicado lançar alguma coisa com a formação totalmente indefinida. Na verdade, nossa formação atual está indefinida, porque tem um baterista (Di Deus). E a gente está afim de uma baterista.

E ele não fica chateado não?

Fica nada. Ele é nosso amigo. Ele sabe que está aí para ajudar a gente. Ele não liga não.

Não existem muitas bandas femininas como o Kaos Klitoriano em Brasília. E as que existem geralmente tocam algo voltado para o punk e o hardcore. Por quê?

Porque, geralmente, o punk e o hardcore têm ideologias. Com o Kaos, particularmente, a gente passa uma ideologia feminista, humanista... humanista, não. Corta (pede rindo).  Ideologia feminista e uma consciência política. Então, eu acho que o hardcore e o punk estão relacionados a isso. Mas tem muitas bandas formadas por mulheres aí. Tem o Valhalla, que é metal, o 10Zer04 e outras bandas de outros estilos.  Acho que (as bandas punk e hardcore formadas por mulheres) não são maioria agora não. Não nesse momento.

Pulso 
(Bianca Martim - vocalista)

Como é idealizar e montar um festival desses?

Poder fazer um festival com bandas com mulheres/lideradas por mulheres é sinal de que alguma coisa mudou. Um festival como esse é uma espécie de celebração de um espaço merecidamente conquistado. As mulheres estão perdendo o medo de falar e de expor suas idéias. E incentivar essas meninas e dar espaço p/ elas mostrarem suas idéias, músicas, arte é o objetivo desse festival e pra mim particularmente, que sou uma apaixonada por bandas com meninas, é reunir o que há de melhor.

O que acha que mudou na "cena feminina" desde o primeiro Feminifest? A vocalista e baixista do Kaos Klitoriano, Adriana Silva, disse que pouco mudou desde o primeiro Feminifest. Ela reclamou que o número de bandas de ou com mulheres na formação continua o mesmo. O que você acha que anda faltando para incentivar mais as garotas a aprenderem a tocar, montar bandas e a revitalizar a cena?

Não tenho certeza. Acho que não existem mais bandas que sacaneiam a mulher como era costume antigamente em Brasília. Acho que o número de meninas tocando aumentou sim, o que antes se resumia a 2 bandas, hoje temos nós, o Kaos que continua, Emochips, Better Days, Toda Dor do Mundo, Stone Fish e uma porrada de bandas de Sobradinho que têm meninas na formação. Fiquei sabendo de uma 100% em Taguatinga e outra em Planaltina. Eu tenho recebido mais materiais de bandas de todo o Brasil também e mais zines femininos. Então acho que as coisas estão melhorando sim.

Foi difícil trazer a Dominatrix e a The Haggard para Brasília?

Difícil sempre é trazer bandas de outros estados. Sem grandes apoios e com a divulgação underground que essas bandas têm, fica um pouco arriscado arcar com todas as despesas. Mas a força de vontade é muita e sem pretensão de lucro e de atingir um público muito grande, dá pra fazer e não se decepcionar.

Vocês trouxeram a Dominatrix e uma banda americana desconhecida mas de qualidade para tocar na 913 Sul e poucos deram importância. A que você atribui essa apatia e indiferença do público brasiliense?

O público foi o mesmo dos outros shows e, como já disse antes, nós não cometemos o erro de contar com um número muito alto de pagantes. Acredito que quem conhece e gosta, e quem tinha curiosidade foi no show. E é essa galera que devia ter ido mesmo. O show foi muito bom, o clima foi muito bom e isso é mais valioso que um show lotado de pessoas desinteressadas.

Você acha que o público de quando você montou a Protons é o mesmo? O que mudou de lá para cá na cena local?

O público se renova de ano em ano, a gente vê as pessoas entrando e saindo da "cena" muito claramente. São poucas as pessoas que ficam de verdade, a maioria não se envolve muito e chega uma hora que está fora naturalmente. É uma pena, mas o mundo do rock é muito ingrato (risos) e tem que gostar muito e ser muito forte pra continuar nele.

Vocês estão para lançar mais um disco. Mudou muito o som da banda?

Estamos em fase de composição desse CD. Algumas coisas atrasaram um pouco esse processo. Acho que tentamos correr demais também e acabamos nos atrapalhando. Mas agora nos acalmamos e estamos caminhando direito. Acho que mudou um pouco sim, acho que estamos caprichando mais, atingindo o nosso limite, usando tudo o que temos. Acredito que o cd vai ficar muito foda! Nós estamos muuuuuuuuuito satisfeit@s!!

Como é tocar com a Dominatrix, que é uma das melhores bandas do Brasil?

Eu já tinha encontrado e tocado com elas algumas vezes na época do Bulimia (antiga banda da Bianca). Sempre distribuí os cds delas aqui e sempre tivemos um contato. A gente (Pulso) tocou com elas em São Paulo em agosto desse ano e foi lindo também. Eu gosto muito de Dominatrix e pra mim é muito bom estar por perto. Dessa vez conseguimos passar um tempinho juntas. Fizemos um passeio turístico com elas por aqui... E se depender de mim, faremos mais algumas coisas juntas ainda... tenho alguns planos em mente.

The Haggard 
(Emily - guitarra e vocal e sts - bateria e vocal)

Como tem sido excursionar pelo Brasil pela primeira vez?

Emily_ Os shows tem sido muito bons e o público muito entusiasmado. A gente têm feito viagens muito longas. Tirando isso, a excursão tem sido muito boa.

Quantos shows vocês fizeram até agora?

Emily_ Hoje será o nosso quarto show. Nós tocamos em Sorocaba, São Paulo, Belo Horizonte e hoje aqui.

Quantas datas ainda faltam para cumprir?

Emily_ Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife, Salvador e mais uma cidade. Desculpa, eu não me lembro o nome do lugar. É Aracaju ou algo assim.

Tirando Dominatrix, o que vocês conheciam sobre o Brasil?

Emily_ Sepultura

STS_  Não muito. Exceto uns CDs coletâneas de samba dos anos 50, que eu tenho. E eles são muito legais.

Como vocês conheceram a Dominatrix?

Emily_ Foi em Amsterdam, no LadyFest. Foi há alguns verões atrás. Talvez tenha sido em junho e julho de 2002. Ah, que queria dizer que eu também conhecia Marisa Monte e mais alguns músicos brasileiros, antes de vir para cá.

E você gosta de Marisa Monte?

Emily_ (Em português) Muito.

E Sepultura?

Emily_ Na verdade, eu nunca ouvi Sepultura. Eu apenas sei que eles são do Brasil.

Com tem sido a reação da platéia às suas músicas e declarações políticas?

sts_ Muito boas. Normalmente... uh, na noite passada tinha uns caras gritando e nos xingando. Mas tirando isso, todos têm nos apoiado muito. Tipo, ah, cantando e curtindo com a gente. Isso é muito legal.

Por que vocês não têm um baixista?

sts_ (Rindo) Por que a gente não tem um baixista Emily?

Emily_ Nós não queremos.

sts_ (As duas rindo) Eu quero. A Emily que não quer.

Eu sei que vocês têm projetos paralelos, certo?

sts_ É, a gente tem um monte de projetos paralelos. Eu toco numa banda chamada "Shut Up and Fuck".

Ótimo nome.

sts_ Sim. No que mais eu toco? Eu não sei. Eu faço filmes e webzines. E eu faço braceletes também. A Emily também tem uns projetos.

Em que outras bandas você toca?

Emily_ Toco numa banda chamada Surprise. A gente te tocado em muitas bandas diferentes. Nem todas estão em atividades... (STS interrompe)

sts_ Eu ia dizer que a Emily esteve na Sectional e que ela tocou com a Tammy Hard no seu disco solo. E eu estive no Cadillac. Acho que as pessoas aqui sabem pouco sobre isso. E eu não consigo mais me lembrar dos projetos. Eu não sei...(sorri)

Como é lidar e brigar contra a homofobia nos Estados Unidos?

sts_ Eu não sei. Geralmente eu só saio com lésbicas. Eu não não "circulo" muito com muitos heteros. Eu acho que muita gente pensa que homossexualismo é uma doença que deveria ser curada. Ou que é algo errado. Eu não concordo com isso. Eu apenas ignoro esse tipo de sentimento. A gente apenas tenta ser bem abertas sobre isso todas as vezes em que tocamos. Nós mencionamos que somos gay. E nós apoiamos os gays a vir aos nossos shows, nos quais a gente sempre tenta colocar muita energia positiva para fora. Eu, pessoalemente, não penso sobre a atenção negativa que a gente recebe por sermos homo.

Vocês tem algum material novo para lançar?

Emily_ Estamos trabalhando, neste momento, na gravação de um álbum novo. Nós temos quase todas as músicas gravadas. Mas nós ainda teremos que parar para fazer mais umas duas músicas para completar o álbum. Tenho esperanças de que o lançaremos no próximo outono (americano).

Dominatrix 
(Elisa - guitarra e vocal, Débora - bateria, Maíra - baixo e vocal, Flávia - guitarra e vocal)

No press release da Protons para esse show, eles apresentaram a Dominatrix como a banda feminina mais cultuada do país. Vocês concordam com isso?

Elisa_  É difícil quando você fala de você mesmo. Mas a gente tem muito tempo de estrada e a mensagem continua a mesma.  E a gente é uma referência para meninas que estão começando a tocar dentro da cena punk. Então, acho que tem a ver um pouco com o fato de dizerem que a gente  uma banda de grande referência no cenário underground nacional.

Excursionando pelo Brasil, vocês acham que tem muita banda boa feminina punk, ou vocês acham que está faltando muita coisa para o cenário ficar mais forte?

Maíra_ Eu acho que tem bastante banda de menina legal, inclusive o Kaos Klitoriano que já está faz uma cara no cenário punk e que é uma banda que a gente respeita muito. Tinha o Bulimia também que é uma banda que a gente amava pra caramba. E que falava muito de mensagem feminista e que era da mesma linha política da gente. Eu acho que a gente precisa motivar. Eu acho que agora está começando a crescer de novo o movimento de banda de menina. Eu acho que está começando uma motivação geral, como houve em 98.  Agora o que a gente tem que tentar fazer é tentar incentivar mais para que as meninas peguem os instrumentos e aprendam a tocar e a passar a mensagem que elas quiserem passar.

Qual a importância de um festival feminino como esse para vocês?

Flávia_ Eu acho que é sempre importante incentivar as meninas a tocarem. Quanto mais show tiver de banda de menina melhor. Até porque eu adoro. (Rindo) E eu adoro banda de menina.

Como tem sido excursionar com o The Haggard?

Débora_ (Rindo) Cansativo! Na verdade, assim, a melhor maneira que a gente pensou em fazer esta excursão foi de carro...(as outras interrompem e pedem para que a Débora fale sobre como é estar com o The Haggard na estrada). É bem bacana estar com o Haggard. Porque é uma banda que todo mundo meio que estranha da primeira vez porque são só duas meninas. Mas é um som que todo mundo acaba gostando. (Voltando ao que estava falando) É um pouco cansativo, pois são vários shows que a gente faz em um final de semana...

E como foi excursionar com o The Haggard nos E.U.A.?

Débora­_ Eu não fui para os Estados Unidos. Eu tive um problema muito grande com o visto. Eles não me deram o visto. Acabei tentando duas vezes e a única lembrança que eu tenho é uma música que as meninas trouxeram para mim, que eu amei. Gostaria de ter a música e de ter ido tocar, mas...

(Desculpando-me) Soube dessa história... Aí vocês levaram uma outra baterista.

Elisa_ A gente não tinha muito tempo para ensaiar e a banda não podia ficar no Brasil sem aproveitar essa oportunidade. Aí uma menina chamada Fernanda deu uma puta força. A gente fez uns ensaios com ela e ela segurou super bem a bateria. Foi cansativo os  ensaios e tudo. Mas ela deve ter curtido e o som ficou bacana.

Vocês estão trabalhando algum material novo?

Flávia_ Esse show que a gente está fazendo aqui faz parte da turnê do disco novo que se chama Beauville, que nós gravamos nos Estados Unidos.  São quatro músicas novas mais umas que já saíram numa split com uma outra banda. (O Beauville) está saindo pelo selo da Elisa, que é o Clorine Records. E a gente está feliz. A gente está fazendo divulgação e tal. E em breve a gente começa a preparar algumas coisas novas.

A letra de "My New Gun" é bastante forte e uma das melhores da banda. Como o público masculino reage e trata a banda depois de todos esses anos de estrada e músicas de protesto?

Elisa_ Essa letra de "My New Gun" tem umas partes que dizem... São mensagens de auto confiança para as mulheres que é tipo: "Seja o que vocês sejam e façam o que vocês façam. Não dependam de homens e tal" Esse é mais ou menos o teor da letra. Na verdade, eu diria que o público masculino não fica incomodado. Quem fica incomodado é o público ignorante. Existe o público masculino e então eu estou generalizando...  Existem muitos meninos que compreendem essa letra melhor do que algumas meninas. Essa letra é meio antiga. Faz sete anos que essa letra do disco "The Gathering" foi lançada. Mas até hoje algumas pessoas nos escrevem e falam: "Ah, aquela letra é meio forte demais". E eu simplesmente falo: "olha, é um mundo masculino. E o mundo masculino e machista já é forte para mim. Acho que no mínimo eu tenho que dá pelo menos uma amostra do que se passa para você se colocar no meu lugar".

Ótima resposta. Valeu!

Elisa_ Obrigada

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