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Frank Jorge por Pedro Brandt 1-Por que você saiu dos Cascavelletes?
E eu tinha todo um trabalho meu de compositor, uma pilha pessoal muito grande de compor também. Fatalmente eu não conseguia ter esse espaço dentro dos Cascavelletes, de certo modo o Nei e o Flávio monopolizavam um pouco esse aspecto de composições na banda. Com a Graforréia Xilarmônica já aconteceu o contrário, era uma banda onde eu tinha liberdade para compor, para bolar arranjos, coisas assim. Então, eu fiquei na banda de 86 à 89 e justamente a minha saída dos Cascavelletes se deve a várias razões, mas é fácil apontar as principais causas. Eu tava bem afim de fazer outro tipo de som, não seguir tocando o que a banda tava fazendo. O Cascavelletes teve grandes momentos e no decorrer do período em que eu ainda tava na banda, eu já não estava curtindo muito o que eu estava tocando com eles e sabendo que seria difícil dialogar com eles e tentar botar outras idéias, eu achei mais fácil eu tirar o time de campo. Então eu gravei um disco que foi o "Rock’a’Ula" (Nota: alguns chamam de "Rock Aula") e sai da banda. Falei: "Ó, vou gravar o disco e não vou seguir fazendo shows com a banda, vou sair fora mesmo, estou com outras idéias." E também uma outra razão, seria uma segunda razão importante; eu tinha entrado na faculdade, eu tava fazendo o curso de Letras, eu nem sabia direito o que que eu estava querendo com aquilo, eu nunca via a obrigatoriedade de fazer um curso superior, sempre vi o lance de curso superior como uma atividade a mais. E daí era também uma coisa difícil conciliar horários de aula com a freqüência com que os Cascavelletes encaravam já a carreira musical de um modo um pouco mais profissional, do que eu via até. Mas a banda tinha um trabalho interessante e gerava até financeiramente uma grana bem legal pra tu sobreviver de música com vinte e poucos anos, era uma coisa que eu pude viver e que foi bem interessante, eu paguei muito da minha faculdade que era uma faculdade particular, era a PUC lá do Rio Grande do Sul. Eu pagava bastante com dinheiro de show. Mas não foi nada brigado, ainda que eu tivesse lá minhas diferenças com o Flávio e com o Nei, a gente era também super amigo, nunca deixei de ser amigo do Flávio e do Nei. 2-Como e quando foi "Os Obsolethos"? Quem tocava contigo?
Independente de um monte de coisas legais que a Graforréia fez, essa fita ficou sendo conhecida como o material mais fiel ao que era a Graforréia. Ela foi gravada numa sessão, não foram dias, foi uma sessão de estúdio e gravada num porta-estúdio com uma fita cassete e o Wander Wildner deu uma força ali na produção, embora o Carlo, que era o guitarrista da Graforréia, entendia bem mais do que o Wander sobre mixagem e equalização de som. O Carlo deu uma mão bem importante e o crédito da produção ficou com o Wander na época. Na verdade, a gente tinha um repertório amplo, já bem ensaiado e a nossa idéia era preencher uma fita inteira, lado "a" e lado "b" cheios. A Vórtex lançava várias fitas, e de certo modo, não era uma regra tu ter lado "a" e lado "b" preenchidos. A gente tinha uma convicção bem interessante de gravar lado "a" e "b" para registrar o maior número possível de músicas nossas. Então ela é um registro de um material de demonstração, que ficou sendo, digamos, um dos principais materiais da Graforréia. Se um cara quer conhecer a Graforréia, ele tem que dar um jeito de conseguir essa fita-demo, porque ela mostra a formação que mais divulgou a Graforréia e trabalhou em termos de repertório. Talvez a formação posterior, que teve daí o Eduardo na guitarra e não mais o Marcelo Birck, tenha sido a formação que mais ajudou a divulgar a Graforréia e fazer shows. Mas essa formação original que está na fita-demo é a que mais caracteriza o que é o som da Graforréia, está ali os dois principais compositores, Marcelo Birck e eu, e ela tem essas características de ser uma fita com músicas com uma grande diversidade musical, tem um certa tosqueira em termos de timbre, é uma fita que não é muito limpinha. E para nós também foi uma surpresa o resultado daquilo, tu está gravando uma fita como quem está fazendo um ensaio e o resultado fica muito bom! São bem audíveis, bem definidos os quatro instrumentos que tem ali, duas guitarras, baixo e bateria, não tem nenhum overdub, nenhum acréscimo de instrumento e é um material que eu gosto muito. 4-Por que o primeiro cd da Graforréia demorou tanto para sair?
E também, o surgimento do Banguela, que foi um selo dentro da Warner, num contexto em que a industria fonográfica estava começando a assimilar outros tipos de bandas do rock nacional, o contexto surgiu disso, foi o contexto apropriado para a Graforréia conseguir lançar o primeiro disco. A gente não lançou o primeiro disco antes, não foi porque a gente não quis, foi porque não pintou da gente se direcionar e fazer um disco. Mesmo hoje com todas as facilidades, segue sendo meio caro tu gravar um disco, é relativamente barato, mas é caro também tu pagar a prensagem, tudo mais. Então, o primeiro disco saiu quando teve que sair, quando teve uma situação apropriada, uma gravadora interessada que não era do Rio Grande do Sul, era uma gravadora de São Paulo, o selo Banguela, coordenado pelos Titãs e pelo Carlos Eduardo Miranda, então a explicação é basicamente essa, ele saiu na hora que tinha que sair. 5-É verdade que o Jack Endino quando esteve no Brasil ficou muito impressionado com a Graforréia e chegou até a querer a contratar vocês? Não, isso aí foi um comentário que saiu na revista
ShowBizz, aquelas coisas que o jornalista vai entrevistar o músico de fora ou o
produtor de fora, no caso dele, e faz um cabra-cega, mostra umas músicas de
bandas do país. E ele, como vinha daquela efervescência que tava rolando
naquela época, do grunge, que era um som mais tosco, ele gostou muito do som,
do tipo de timbre que tinha nessa fita-demo que a gente tava falando antes. Só
que na verdade, isso aí não se aprofundou, da gente tentar ir atrás dele,
fazer contato. Isso aí foi apenas uma página interessante, ver que o Jack
Endino tinha citado a Graforréia, ouviu e gostou. Mas isso aí não
passou disso mesmo, isso aí não foi potencializado. 6-Existe alguma proposta de alguma gravadora para relançar os discos da Graforréia ou mesmo uma coletânea? Não... a resposta é meio curta assim. Eu acho que de todos da banda, o único que volta e meia pensa um pouco nisso e quebra a cabeça - não que eu perca o sono com isso mas... eu meio que me preocupo pelo fato de ver muita pirataria. Eu vim tocar ontem aqui em Brasília e tinha um cara na porta do bar vendendo cd-r's, tudo bem, está fazendo o dele, mas isso é um pouco ruim, porque as pessoas não tem um material legal... Eu acho que a banda cedo ou tarde vai ter que se deparar com essa situação de ter produzido material, de ter lançado cd's e isso estar fora de catálogo e ser pirateado, isso aí é meio ruim! Mas não tenho preconceito, o tipo de gente que vai piratear a Graforréia é um número teoricamente pequeno, pessoas interessadas, mas isso aí pode tomar uma dimensão que nem a gente imagina, de repente tem um número grande de pessoas que tão ganhando uma grana vendendo o teu cd para um monte de gente interessada na Graforréia. Isso faz com que a gente cedo ou tarde se organize pra tentar lançar de algum modo os discos, mas não há planos de gravadora alguma de lançar. 7-O que você acha da internet como meio divulgador de novos artistas? Você acha que no Brasil já é possível que uma banda independente consiga viver num meio termo de sucesso, ou seja, sem alcançar o sucesso pleno, mas também sem ficar no anonimato? Eu acho que internet é uma ferramenta muito útil para várias coisas, eu acho que só a possibilidade de tu trocar e-mail no mesmo dia com pessoas do país e do mundo, isso já é uma coisa que na minha época, digamos, quando a Graforréia tava surgindo, não existia! Hoje se tu quer dar uma idéia do teu material, tu pode mandar um mp3, um real audio. Eu acho que o mais legal da internet é o fato das pessoas poderem se comunicar via e-mail, acessar sites onde as pessoas estão divulgando informações. Mas acho que internet não faz milagre algum também, eu acho que a banda, ou seja o tipo de artista que for, o cara tem que fazer algum trabalho porque ele é afim, porque ele gosta de música, ele gosta de tocar, acha aquilo importante para ele. E cada um vai buscar a sua maneira de concretizar, lançar cd e tornar a atividade musical mais ou menos estável. Isso aí segue sendo desafiador pra mim, que tenho que conciliar o lance de trabalhar numa tv, tenho um emprego, tenho uma carga horária de trabalho, tenho filhos e sigo sendo músico! Nunca parei, independente do trocadilho “carteira nacional de aposentado”, eu acho que eu nunca vou conseguir parar de tocar e acho isso muito bom, tenho sido bem feliz de estar indo em outros lugares, estar viajando pra outros estados, estar conhecendo outras bandas, tocando no mesmo palco com bandas de diferentes cidades, acho isso muito bom. Agora, quanto a tua pergunta em relação ao sucesso, eu acho assim, que no fundo toda banda ou todo cara um pouco mais jovem, quando está tocando, ele tem certas ambições em relação ao sucesso e tudo mais, eu acho que isso é super natural, acho que a pessoa tem que ter lá suas ambições, mas eu acho que a pessoa nunca pode é se despreocupar de criar a sua sonoridade, a sua convicção pessoal em termos artísticos, concretizar isso com muito astral, com muito humor, com muita irreverência, eu vejo por aí. E acho que é desnecessário imaginar que a indústria fonográfica é difícil, que fazer show vai ser complicado, eu acho que as pessoas tem que ter iniciativa, tem que ter um discurso otimista diante das coisas, eu acho que as pessoas tem que ir à luta atrás daquilo que realmente são afim. Avaliando assim, de uma maneira realista, teoricamente parece difícil para uma banda que está começando, está lançando seu primeiro cassete ou seu primeiro cd-demo, se imaginar ganhando muita grana. De repente, tudo é possível, eu quando compus músicas que faziam parte do universo da Graforréia, eu não imaginava que outras bandas do país que eu gostava iriam regravar músicas minhas! Então isso acaba dando dimensões que tu não estava calculando! Não é que seja fácil ou difícil tu ser conhecido, ganhar grana, atingir sucesso, acho que essas coisas são decorrências da tua dedicação.
Não, porque as músicas da projeto solo sempre existiram, mesmo no período em que eu ainda estava na Graforréia ou nos Cowboys Espirituais, só que no trabalho solo, ainda que não seja a minha intenção, de todos os trabalhos que eu já fiz até hoje, é um dos que é mais sério. Mas eu não consigo ser um cara sério no palco! Eu não consigo, mesmo cantando letras mais introspectivas, eu não consigo ser um cara muito sério, eu não me vejo assim. Então, na verdade, o trabalho solo não é decorrência dos Cowboys, o trabalho solo é uma concretização da minha vontade de sempre estar escrevendo, estar fazendo música, é o reflexo da minha vontade de estar dizendo coisas, botando um pouco de influência das coisas que eu estou escutando de música; é por aí. 9-Devido ao sucesso de crítica de "Carteira Nacional De Apaixonado", você chegou a receber ofertas de grandes gravadoras? E se recebesse, aceitaria? Não recebi ofertas de grandes gravadoras e eu acho que a gente não pode se fechar assim, totalmente. Eu já tive experiências com alguns tipos de gravadora e algumas experiências um pouco ruins, principalmente no aspecto de distribuição de cd. Por tu não ser uma prioridade dentro da gravadora, teu cd acaba não chegando num monte de lojas, principalmente em lojas da tua cidade onde vai ter algum público interessado em comprar. Eu já tive bastante esse tipo de experiência com a Graforréia e com os Cowboys. Então, eu acho que grande gravadora é uma coisa meio complicada, porque não deixa de ser uma possibilidade de tu ter condições de gravar bem gravado um disco. O problema sempre na minha maneira de ver é a distribuição do cd, mas se eu não tivesse gravado "Coisa de Louco 2" pela Banguela, que teve problemas de distribuição, o Pato Fu não conheceria a Graforréia, tu entende? Eles poderiam até conhecer pela fita-demo de algum modo ou outro, mas foi através daquele disco que eles conheceram a Graforréia, e fatalmente acabaram gravando em dois discos duas músicas da Graforréia, gravaram "Nunca Diga" e "Eu". Então eu acho que não dá para ficar elegendo vilões, "as grandes gravadoras"! As grandes gravadoras estão fazendo o papel delas, eles lançam artistas com mais ou menos talento e querem ganhar grana, não interessa! A maneira como tu vai te relacionar com as grandes gravadoras é que é o lance. Eu acho importante ter um cara como o Lobão chutando o balde, mas ele no fundo também já criou a gravadora dele, está lá ele batalhando as coisas, sabe-se lá se daqui a pouco ele não vai estar gerenciando, talvez até de uma maneira bem honesta, bandas na gravadora dele?
Cara, acho que não passaram de três mil cópias, duas mil eu tenho certeza, três mil eu acho que há uma possibilidade. Eu acho que é uma boa vendagem para um cd independente, um cd que foi gravado com orçamento baixo... 11-Quanto ao seu novo álbum, "Vida De Verdade", as gravações já terminaram, existe previsão de lançamento? Não terminaram ainda as gravações, mas está bem adiantado na verdade. A minha dificuldade é muito de horário e não de idéias, não de criatividade, não de falta de gente para acrescentar instrumentos, mas dificuldade de horário mesmo, por eu ter um trabalho. Eu trabalho como produtor e apresentador num programa de tevê em Porto Alegre, tenho filhos também. Então o meu tempo acaba sendo escasso! O disco conta com participação do Pato Fu tocando instrumentos numa faixa - eles mandaram esses arquivos pela internet - e também conta com arranjos dos Los Hermanos. Eles não participam do disco, eles criaram arranjos de sopros que a gente vai gravar. E não tem data de lançamento e nem tem gravadora definida até então. 12-E o Nando Reis, vai participar? Não, isso era um boato, até me surpreende tu saber disso! (Nota: dá-lhe Pedro Brandt!) O Nando Reis é um cara que é admirador do meu trabalho desde a Graforréia, me dou muito bem com ele, já falei pelo telefone, já falei pessoalmente com ele. É um cara que é muito legal e gosta do meu trabalho, mas não sei se isso vai se concretizar também, não vou ficar especulando. O Pato Fu já gravou o material, está lá no disco, e os Los Hermanos estão finalizando o arranjo de duas músicas, tem duas que eles já criaram arranjos. Isso são coisas concretas, quanto ao Nando Reis não tem nada de concreto. 13-Quem está produzindo o disco? O mesmo cara do primeiro cd, que é o Iuri Freiberger. É um grande amigo, um grande músico, toca bateria na banda Tom Bloch. Ele é um cara muito atento, muito cuidadoso, é um cara que passou a gostar de um monte de tipos de sons que eu gosto, que eu mostrei pra ele, e é um cara mais jovem do que eu, deve ter 26, 27 anos. Eu tenho 35, então ele tem toda uma outra carga de informação, de bandas mais recentes. É um cara que sabe valorizar música independente do período. E é interessante isso que eu coloquei, que ele começou a curtir muito e a respeitar bandas que eu mostrei pra ele, bandas dos anos 60, Beach Boys, Beatles; coisas que ele já conhecia mas nunca tinha se aprofundado. 14-Além de "Vida De Verdade", alguma outra canção das suas primeiras demos solo entrará no disco? Sim, sim. O fato de ter um monte de composições gera esse tipo de coisa, que às vezes algumas entram, outras não entram, às vezes tu cria novas para mostrar que tu está produzindo e tem esse aspecto de tu ter um baú de canções, canções que tu compôs num período e acabou não botando no primeiro disco ou não entrou na época da Graforréia. Então nesse disco entram, pelo que lembro, músicas que datam do início do trabalho solo, que é 1998, essa é a data oficial. Então tem "Novo Dia", tem "Vida De Verdade", como tu já falou, "Falando da Chuva"... Não estou lembrando de outras agora, mas tem. Tem várias músicas que não são totalmente inéditas no meu repertório. 15-O Diego Medina, ex-Video Hits, alega que um dos motivos da banda ter encerrado as suas atividades era a insatisfação tanto com a industria fonografica, quanto com o mercado consumidor. Você achou precipitada a atitude da banda? Afinal de contas você leva a vida como músico há muito mais tempo e ainda não teve o seu devido reconhecimento.
Eu também era um cara que curtia muito assistir um show da Video Hits, uma das bandas que mais me motivava a assistir um show em Porto Alegre era a Video Hits. É difícil fazer comparações, ele tem um tipo de formação, eu tenho outra e eu respeitei o fim da banda, acho que os caras encheram o saco de ver a dimensão de uma coisa que ia acontecer, que acabou não acontecendo. Eu até tenho um material que é bem raro, que é a gravação de uma espécie de ópera-rock infantil do Diego, que é uma coisa de outro mundo, com vários textos e ele fazendo vozes de diferentes personagens. É uma coisa muito interessante. 16-O que você tem a dizer para esses tantos viciados no bem que você faz para a humanidade com suas músicas? Eu fico contente e sempre meio perplexo com o astral das pessoas que nos cercam nos diferentes shows nas cidades que a gente tem ido. A gente recentemente foi ao Rio de Janeiro e também cidades do sul do Rio Grande do Sul, cidades como Chuí, Santa Vitória do Palmar, Montenegro, a gente andou viajando bastante com esse trabalho. Então, eu sempre fico meio perplexo, a gente não sabe dimensionar o tamanho do que que a tua música está atingindo e gerando pras pessoas... Eu fico bem contente! (Nota: nós também, Frank, nós também...) Perguntas elaboradas com todo o carinho por: Pedro Brandt & Bruno Cavalcanti Diagramação: Pedro Brandt Edição: Bruno Cavalcanti Agradecimentos: Fernando Rosa, André Vasquez e principalmente ao fofo do Frank Jorge
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