# 29 - março de 2004

Skinheads verdade ou mentira

por Thiago Porto

Os skinheads tradicionalistas não são neonazistas e nem todos são racistas. Todo mundo imagina que o movimento surgiu na Alemanha, mas na verdade ele surgiu na Inglaterra nos anos 60.

A idéia era unir o pessoas que curtia reggae (inspirados nos rude boys jamaicanos), os torcedores fanáticos de futebol (os chamados hooligans, ou boot boys) e jovens operários (incluindo aí os chamados Mods). Todos reunidos contra os hippies, seus cabelos compridos e seus discursos ingênuos. 

Naquela época, os jovens começaram a raspar a cabeça para ficarem diferentes dos hippies, para poder brigar sem problemas e por higiene, principalmente no caso do pessoal que trabalhava no porto e não podia ficar pegando piolhos toda hora. Também começaram a calçar coturnos, uma herança operária.

Os skinheads curtiam - e curtem - diversos tipos de música. Os gêneros mais comuns são: ska, e punk dos anos 70. 

O ska surgiu na Jamaica ainda na década de 60, sendo uma mistura de diversos ritmos caribenhos. O próprio reggae foi um desenvolvimento do ska. Destacam-se no estilo, em ordem "mais ou menos" cronológica: Desmond Dekker, Jimmy Cliff, The Ethiopians, Judge Dread, The Skatalites, Bad Manners, Madness, The Selecter, The Specials, The Beat, Less Than Jake, Link 80, Slapstick, Toasters e muitos outros. Os últimos, já na década de 90, misturam ska com punk, uma nova tendência.

Durante a década de 60, a principal gravadora de reggae/ska skin era a Trojan. Logo depois, surgiu a 2 Tone. Hoje em dia, a principal gravadora é a Moon Ska Records, de Nova Iorque. Em São Paulo, você pode ouvir ska no programa Skabadabadoo da Brasil 2000 FM.

Já o Oi! é um punk rueiro (streetpunk, em inglês), bastante direto e simples, surgido no final da década de 70 e começo dos anos 80. A palavra "Oi", apesar da semelhança com o nosso 'oi', vem da gíria cockney inglesa, significando "ei". Também é uma contração do termo grego "oi polloi", que significa "pessoa comum". A música "Oi! Oi! Oi!" dos Cockney Rejects foi a primeira a fazer uso do termo.

As letras Oi! falam do dia-a-dia da juventude operária inglesa (e, posteriormente, do mundo todo): desemprego, trabalho, brigas, farras, gangues, prisão, orgulho, bebedeiras, autoridade etc., bem ao contrário do punk fashion, o punk de butique, como bem definiu Garry Bushell, "pai" do estilo e da primeira coletânea do gênero: "Oi! The Album."

O Oi! foi exportado para todo o mundo, influenciando inclusive a cena hardcore dos Estados Unidos (Agnostic Front, Sheer Terror, Youth Brigade e outras). Vale destacar aqui, também em ordem "mais ou menos" cronológica, as bandas Sham 69, The Lurkers, Cockney Rejects, Cock Sparrer, Angelic Upstarts, The 4 Skins, The Business, Last Resort, Infa Riot, Blitz, The Oppressed, The Bruisers, Anti-Heros, Patriot, Section 5, Klasse Kriminale, Bovver 96 e Dropkick Murphy's.

Aqui no Brasil, bandas Oi! com forte influência skin são: Garotos Podres, Vírus 27, Bandeira de Combate, Patriotas, The Skulls, Carbonários, etc. Existe uma gravadora brasileira especializada em Oi!: a Rotten Records, dirigida por um skin bastante conhecido por seus livros e poesia: Glauco Mattoso.

O último dos gêneros que fazem a cabeça dos skins é o punk rock básico, nascido na segunda metade dos anos 70. O Oi! e o punk rueiro têm praticamente o mesmo som. A diferença, basicamente, está no tema das letras.

Na Inglaterra, tudo começou com o Sex Pistols. Nos EUA, a semente está nos Ramones e The Stooges. Vale destacar a banda The Exploited que, apesar de fazer parte da segunda onda punk (o movimento "punk's not dead"), participou da primeira coletânea Oi! organizada por Garry Bushell, o "Oi! The Album". No encarte, o Exploited é descrito como "skinhead herberts from Edingburgh" (sic). Talvez por esse motivo, o movimento anarco-punk paulistano tenha se indisposto com Wattie (vocal do Exploited) e sua turma nos shows feitos no Brasil em 93 e em novembro de 2000.

O punk passou por várias metamorfoses, perdendo muito de seu espírito rebelde e contestador. Hoje o sistema já assimilou o punk de butique, tornando-o apenas mais uma moda, pelo menos no que diz respeito a bandas poppypunks, tipo Green Day, Offspring, Blink 182 e outras. Não podemos esquecer, porém, algumas bandas que aindam preservam a postura contestadora, anti-establishment, como Varukers, Refused, GBH e as nacionais Sick Terror, Calibre 12, Olho Seco, Invasores de Cérebros etc. O movimento skinhead, ao contrário do poppypunk, continua arrepiando famílias no mundo inteiro (talvez pela errônea associação com o neonazismo, o "tabu" moderno por excelência). 

Apesar de terem se passado mais de 30 anos desde suas origens, o movimento skin mudou muito pouco no que diz respeito à aparência: coturno (a marca mais conhecida é a inglesa Doc Martens), suspensório, calça jeans (Levi's 505 ou similar), camiseta ou pólo (Fred Perry, Lonsdale ou similar), jaqueta de aviação e a cabeça raspada. O visual, aliás, inspirou Stanley Kubrick no filme Laranja Mecânica.

 

Hoje em dia, há pelo menos 3 tipos de skinhead pelo mundo. 

1-A maioria deles são os chamados "tradicionais", que acreditam nos valores originais do skinhead. Muitos são o que se chama de "Espírito de 69", ou seja, procuram reproduzir exatamente os skins dos anos 60 e ouvem apenas reggae e ska. Outros são mais ligados ao Oi, e a maioria gosta tanto de Oi!, quanto de punk 77, reggae, ska, soul, etc... A política fica em segundo plano, e todos são contrários ao racismo. 

2-Há também os skins assumidamente de esquerda, que podem ser "Sharp" (radicalmente anti-racistas que confrontam nazis) ou "Rash" (skins anarquistas ou comunistas). Estes, convivem mais ou menos bem com os tradicionais, e ouvem as mesmas coisas, mas há um certo conflito, pois os "trads" chamam eles de fanáticos e eles chamam os "trads" de alienados... 

3- Os skins nazis, que em geral usam visual diferente, curtem som diferente (puxado para o hard rock) e frequentam baladas diferentes. São universalmente detestados... 

 

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