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| # 28 - fevereiro de 2004 |
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Dizendo nada por Priscilla Leonel Digamos que você acordou e percebeu que até Chapolin escreveria um texto melhor do que aquele que você fez noite passada. Você pega a caneta e o lápis, ou melhor, liga o computador (tempos modernos, babe) e começa a tecer outro texto - até descobrir que uma grande forma de consumir a sua capacidade de escrever algo útil é acordar em mais um dia cinza tentando entender porque diabos sua mãe comprou aquele guarda-chuva (o que está detonado agora no chão do seu quarto por causa da tempestade de ontem enquanto você e seu cabelo penteado iam para o trabalho) no 1,99. O engraçado é que você está num dia exatamente como este. E o triste é que você tem até a hora do almoço pra enviar um texto pronto ( pra não perder o seu ônibus, já que seu carro está quebrado - seu bolso também - e não ouvir do seu chefe, enquanto este joga a fumaça do seu cigarro na sua cara, que é a décima vez, em dez dias, que você chega atrasada) para a PROTONS. "Que ótimo" - vc pensa. E até aí você já escreveu algumas linhas. Linhas estas que não dizem nada, te deixando quase frustrada por fazê-los (os leitores) bem vindos ao universo do baixo córtex (e saber que depois da próxima "vírgula" poderá haver xingamentos a senhora sua mãe no guestbook existente no site onde seu texto será publicado). E mais um pedaço do texto está feito. E é claro que ele está parecendo aquelas manifestações públicas de insatisfação pessoal - vc acaba de atingir o ponto onde se perde o último fio de dignidade e se coloca passível de ser salva por alguém. oi, meu nome é fulana, escuta, por que você não me salva? E olha que você até tinha coisa pra dizer: o dólar abriu em queda; tem gente morrendo afogada e SP fashion Week taí, trazendo as novidades de como se vestir elegantemente numa enchente. Então fica assim: você lê o texto, finge que aprendeu algo, eu finjo que disse algo e vou ali, ler os classificados no jornal, fritar um hambúrguer, dar comida pro gato, pegar meu ônibus, chegar atrasada e descobrir meios de, na próxima, escrever um texto que fale, ao menos, de como abrir um sutiã com uma mão só.
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