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| # 29 - março de 2004 |
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I can't get no Satisfaction por Priscilla Leonel Sempre acreditei que houvesse dois tipos de pessoas insatisfeitas: as que realmente estavam insatisfeitas e as que queriam parecer insatisfeitas. Sim, meu bem, "queriam parecer insatisfeitas", porque, você sabe, sempre vai existir o sujeito insuportável que faz questão de fazer aquela cara de quem depila a virilha com cera pela primeira vez 25 horas por dia. Esse ser possui uma cara redonda, um bico enorme e costuma ser a pessoa mais desanimada do mundo por motivos microscópicos. Nasceu uma espinha? Pronto, tá lá o indivíduo, contaminando o ambiente, distribuindo arrogância e aromatizando a sala com seu cheiro de "a vida é um droga". No geral esse tipo de pessoa quer chamar atenção ou conquistar um ar sério, misterioso, acabando por ficar no limbo, entre o ridículo e o ridículo, sempre aparentando esperar pela lei de murphy. E daí que eu tinha uns 14 anos. Costumava mandar cartas pro Brasil inteiro, através da revista METALHEAD, objetivando trocar confidências com pessoas que, assim como eu, curtia rock e era o ‘depress mode’ em pessoa. Sim, porque, pra gostar de rock tinha que rolar aquela cara de loser. Objetivo do jogo: parecer o ser mais insatisfeito e cretino de todos pra no fim ganhar o troféu de "desperdiçadora de tempo do ano" . Minha realidade: Papai, mamãe, amor, amigos, comida, casa, roupa lavada, arroz, feijão, escola particular, curso de inglês, academia e fitas K7 de puro rock. Sim - eu era uma adolescente acéfala feliz que se fazia insatisfeita porque achava bonitinho ser uma megera enrustida. Mas isso é uma coisa. Outra coisa é um marmanjo com mais de 18 anos ver graça em ser um pé no saco, pessimista e inútil. Convenhamos: a vidinha, em sua essência, já é um tanto difícil. Somar a esse fato previsões sempre dramáticas e fazer questão de ser sempre o inconveniente é pentelhar demais. Tem sujeito que ainda não entendeu que o interessante é quando se é capaz de se ser alguém leve; de se ser otimista frente ao que não se pode prever, de se querer acrescentar, somar - e não ficar parado, inutilizado, criticando e achando o máximo ser essa bazuca ambulante. Mas, ó, se ficar difícil fazer isso, não tem problema: também é interessante calar a boca, ficar quietinho e ligar o som. Vai ler um livro, tão melhor...
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