# 27 - janeiro de 2004

I killed the rock Then they killed my brain

por Priscilla Leonel

"Arte.

Não, isso não é um texto sobre arte, não me olhe assim. O ponto é: tudo começa na arte; na maneira de revelar o que se sente para o mundo, sempre em revolução, inovando, criando, trazendo de volta ou jogando fora.

Agora, sim, vamos ponto: o rock. Sim, aquilo, que veio nos anos 50 pra abalar as estruturas do que foi proposto anteriormente e que toda sua árvore genealógica chamava de obra do demônio. Exato - parece que você está se lembrando dos gritos agressivos e acordes nada amorosos que evocavam a liberdade.

Então. Após vagarmos pela arte e música como nau que perdeu o rumo, no oceano da enrolação dando trombadas em todos os arrecifes que nele existem, podemos olhar a nossa volta, enfim, para concluirmos que a coisa evoluiu. Evoluiu, sim, diversas vezes em direções uma tanto estranhas. 

Talvez o maior erro do "amante" do rock tenha sido separá-lo de sua própria alma: fizeram do rock um guarda roupa alternativo, um esporte, um rótulo. Traduziram-no como se ele tivesse sido criado somente para o corpo e para o uso dele. Esqueceram da condição libertadora e agressivamente simples dessas letras e ritmo criadores de estados de alma.

E então seus pais começam a se irritar dizendo que este mundo em que sua geração vive é um mundo de alienados. E você nem ao menos discute, apenas lembra dos jornais que mostraram fotos dos jovens que gritavam o rock com a alma, com idéias formadas, lutando por ideais iguais. E logo após você olha a sua volta e vê o mundo como os jovens o transformaram, com suas mentes terrivelmente inteligentes, trocando ofensas anônimas na sala 4 do chat na internet, lutando por seus umbigos. 

Somos uma geração até interessante. Mas uma geração não tão esperta como achamos. E não, nós não conseguimos perceber o processo de banalização do rock: munidos de nossas câmeras com mais mega pixels que a sua, estamos sentados na escada aos domingo, vazios de opinião, de personalidade e de pessoas com alma e espírito. A alma ficou pequena e hoje ser "roqueiro" é colocar xuxinhas coloridas e fashion nos cabelos. É usar uma blusa bonitona e se encontrar com os amigos nos showzinhos da cidade. É ter grupos alternativos coloridos ou trajados de negro e esnobar todo e qualquer ser estranho àquele. É dizer, simplesmente, que se é roqueiro. 

Triste não entenderam que a grande beleza da coisa não está nas roupas, nem nas fivelinhas das garotas, muito menos na droga que se usa enquanto se traja um visual pesado, muitas vezes beirando ao ridículo, carregando traumas causados por nunca terem sido escolhidos pelos coleguinhas da 3ª série para o time de queimada.

Triste não entenderem que a idéia da coisa também não está no "leve o mundo que eu vou já" estampado em nossas testas preguiçosas, de jovens ociosos (porque tem cabelo no ralo do banheiro e ninguém quer meter a mão; porque há pelo que lutar, mas ninguém quer acordar antes do meio dia). 

Triste não entenderem que a alma do rock não está na vontade furiosa de jogar o computador pela janela cada vez que ele trava nem em quantos palavrões você fala por minuto. 

A idéia toda sempre esteve na simplicidade, na união de gritos e ideais. A idéia está nas letras furiosas que as bandas sinceras fazem; na movimentação e união dos grupos em busca de algo real. A verdadeira identidade do rock está em se conseguir desprender dos rótulos e desse sensor que fazem as pessoas decidirem ir ou não com a cara de outras, entendendo que a união é que vai nos fazer sobreviver sem nos perdermos em meio a tanta exposição exagerada e falsa e tanta moda.

 

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