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Crash - Estranhos Prazeres por Bruno Cavalcanti
Parece que David Cronenberg, que fez o clássico A Mosca, remake de 1982, quis chutar o balde das frescuras meladas de Hollywood com este pequeno cult. Ok, a direção não é primaz: em marcha lenta, sem definição palpável de início, clímax e fim, e pra piorar, tem James Spader como protagonista! Mas o roteiro, por si só, vale por todos esses dejetos juntos. As cenas de sexo são todas gratuitas, e se em outros filmes seria apenas para justificar o preço da sua locação, aqui dá um clima ainda mais no sense ao filme. Mérito para Cronenberg! Não lembro de outro filme dos anos 90 com tal embalagem, tão hollywoodiana e tão escrota ao mesmo tempo. Este filme sobre "a mecânica da pornografia", baseada no livro "Crash", de J.G. Ballard, é umas das maiores aberrações do que um dia se chamou de expressão sexual, e em matéria de choque da crítica e opinião pública, faz do superestimado Clube da Luta um passeio no zoológico com a vovó. Parece que atores de algum renome se reuniram numa vontade em comum quase desesperada de sair do tabu infanto-juvenil dos filmes holliwoodianos ditos subversivos, e fazer uma aberração intolerável e repelente para o público médio e um deleite para o público que importa. Atuação magnética de Elias Koteas (como o psicótico médico Vaughan), aceitável de Rosanna Arquette (como a deformada Gabrielle) e Deborah Unger (que aparece pelada todo o tempo) o já esperado de Holly Hunter (a sadomaso Helen Remington) e James Spader. O filme gira em torno de perversões sexuais das mais bizarras: voyerismo, travestismo, sadomasoquismo, homossexualismo, necrofilia - tudo englobado sob um fetiche principal, o de desastres de carros. Um grupo de esquizóides que tem como fantasia sexual capotar um carro pra depois trepar dentro do que restou dele, se excitar olhando um acidente com pessoas despedaçadas, ensangüentadas, onde o maior prazer seria transar com os sobreviventes mutilados (destaque ainda para a reunião do grupo para uma seção de vídeo, onde assistem filmes sobre testes de cinto-de-segurança e danos causados a veículos em determinada velocidade, e se masturbam em grupo com as cenas em câmera lenta do metal se torçendo, estilhaços de vidro voando, e do boneco usado no teste se despedaçando). Ou seja, uma turminha pra lá de doida! Há ainda o médico gay-masoquista Vaughan, chefe do grupo, que vê o prazer sexual de uma forma ultra-nietzschiana, onde o orgasmo aumenta na proporção em que se aproxima da morte e se sai mais lesado numa fusão erógena entre a carne e a máquina, como quando sobrevive nas demonstrações públicas que faz, onde revive e recria, nos mínimos detalhes, acidentes de carro de celebridades, como o de James Dean, de 1955. -"Eles se machucaram pra valer?" -"Nunca se machuca pra valer..." Detalhe ainda para a cena em que estão rodando pela cidade e se deparam com um acidente terrível, com várias vítimas. "Que obra de arte! Pare o carro!..." e tiram fotos enquanto gemem, murmuram e se excitam só de passarem perto das vítimas feridas e desesperadas do acidente. Usam como modelo fotográfico um deles, e ambientalizam o carro arrebentado com os mortos como cenário de uma série de fotos pornográficas. Muitos anti-clichês aparecem por aqui: pessoas comuns e amigas morrem sem que isto tenha qualquer importância ou cause alguma emoção que não seja positiva nos que sobrevivem; metade do grupo é aleijado, paralítico e lesado, e todos se excitam vendo as fotos dos acidentes dos colegas, das partes amputadas, das cicatrizes, dos edemas. Todos esses fetiches transformam Crash - Estranhos Prazeres, que só pôde ser rolutado nos Estados Unidos com o x-rated depois de dez minutos de cenas cortadas, num filme não indicado pra você...
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